
Planejamento.
Palavra tão desgastada no futebol brasileiro.
Usada como escudo para treinadores pressionados em decadência.
Como Vanderlei Luxemburgo.
Ou para dirigentes criticados que acumulam fracassos.
Como Patricia Amorim.
Se algum clube honrar o significado de planejamento, pode se preparar de verdade para 2013.
Luiz Felipe Scolari anunciou ontem com todas as letras que não ficará no Palmeiras.
A partir do dia 1º de janeiro estará leve, livre e solto.
Deu e cumprirá até o fim a palavra empenhada ao ex-presidente Beluzzo e a Gilberto Cipullo.
"Fui buscar o melhor do Brasil para o meu clube.
Se o período foi ruim com ele, não imagino o que seria sem o Scolari.
Acredito que valeu e vale cada centavo que gastamos com seu salário.
Não há um palmeirense de verdade que não gostou da sua volta.
Estou falando palmeirense de verdade, não gente invejosa do seu currículo.
O projeto era excelente, mas infelizmente o Scolari não pôde trabalhar na sua plenitude.
Por uma série de dificuldades financeiras.
Os resultados não vieram como esperávamos.
Mas estou orgulhoso por tê-lo trazido para o clube.
Repito: imagine o Palmeiras sem ele neste período de dificuldades..."
As palavras me foram ditas por Belluzzo.
Ele sabe o que diz.
A Scolari foi prometido uma verdadeira seleção.
Valdívia e Kléber seriam apenas os primeiros.
Mas logo as várias alas do clube entraram em choque.
Principalmente pelo contrato de construção da Arena Palmeiras com a WTorre.
O dinheiro parou de entrar.
Belluzzo começou a pedir adiantamentos de cotas de tevê.
Para pagar salários.
O projeto de supertime parou no meio.
Os fracassos em campo.
A torcida se sentindo traída, cobrava.
O stress.
E a doença cardíaca chegou para Belluzzo.
Nas mãos de pessoas com quem nem imaginava trabalhar, como Salvador Hugo Palaia, o homem da autoentrevista...
Vlademir Pescarmona, Arnaldo Tirone e o seu inimigo número um, Roberto Frizzo.
Frizzo é para Felipão o que Leco foi para Muricy.
O homem da diretoria que sempre quis a sua saída.
O motivo: não aceitar a autonomia de um treinador.
Para Frizzo, técnico é funcionário e tem de obedecer ordens.
Mas o tempo mostrou que Scolari não era um funcionário comum.
Primeiro por ser avesso às ordens.
E depois por ser o único homem no clube respeitado pelas torcidas organizadas.
Elas não invadiram o Palmeiras depois do acúmulo de fracasso graças a e Felipão.
Campeão do mundo com a Seleção e treinador vencedor da Libertadores de 1999.
Instintivos, os torcedores sabem que é Felipão quem evita que o clube vire chacota de vez.
Por mais que venham as derrotas.
Luiz Felipe Scolari se viu mergulhado em um turbilhão.
Falta de dinheiro, traições entre os dirigentes, inveja, ciúme.
Cobrança da imprensa e dos torcedores.
Por um momento seguiu orientações do seu truculento assessor.
Foi quando viveu os piores momentos no Palmeiras.
Como o vexame de ser recebido por repórteres com narizes de palhaço.
Havia dito que cobrar o retorno de Valdívia ao time era uma 'palhaçada'.
Quando agiu com a própria cabeça e percebeu que socar alguém não resolveria, se acalmou.
E trabalhou no limite.
Há uma multa de R$ 5 milhões para que deixe o Palmeiras.
Ou que o clube o demita.
Dirigentes divergem sobre ela.
Uns dizem que diminuiu com o passar do tempo e outros garantem que não.
"Mas nunca foi a multa que segurou o Felipão por aqui.
Sim a sua ligação com o Palmeiras.
Nós nunca quisemos a sua demissão.
Por mim, ele fica até o último dia de seu contrato."
A afirmação é do presidente Tirone, que o usa muito bem como escudo.
Desde julho de 2010, Felipão está no clube.
Detesta que seja publicado essa parte do texto.
Mas já é de domínio público.
Os próprios dirigentes passaram aos jornalistas, o seu seu salário.
Orgulhosos...
Aceitaram bancar o maior salário da América Latina pago a um treinador.
São R$ 700 mil mensais livres de imposto.
E mais uma inexplicável ajuda de custo de R$ 7 mil como auxílio residência.
"Este treinador custa aos nossos cofres R$ 1 milhão por mês.
Um absurdo", desabafou várias vezes Mustafá Contursi a aliados.
A relação dos dois nunca foi boa.
Mas não foi o dinheiro que segurou o técnico.
Com o que ganhou em Portugal, no Chelsea e no Uzbequistão...
Garantiu uma vida repleta de mordomias até aos seus bisnetos...
Além disso, poderia ganhar mais fora do Palmeiras.
Ele teve propostas de R$ 1 milhão livres de impostos do Fluminense e do Internacional.
Cruzeiro, Grêmio e São Paulo pagariam mais do que recebe no Palestra também.
Foi sondado por seleções asiáticas.
O ex-jogador Asprilla garantiu que se jurasse que aceitaria, iria trabalhar na Seleção Colombiana.
Felipão disse 'não' a todas essas propostas.
"Tenho uma palavra só", disse a César Sampaio.
Foi ele quem o levou para o Palmeiras e é balela que o gerente o pode demitir.
Amigos, gostam e se divertem com essa história, nos momentos de desgraça.
Já publiquei várias vezes que ele não renovaria com o Palmeiras.
As fontes eram mais do que confiáveis.
Felipão estava esperando o momento para anunciar que não renovaria.
Até que ontem na tevê Gazeta disse que a partir de janeiro de 2013 está livre.
Qualquer clube ou seleção que quiser um treinador capacitado é só procurá-lo.
No Palmeiras ele não fica mais.
Belluzzo ficou até emocionado com a promessa cumprida.
"O Luiz Felipe fez e faz o que pôde com o material humano que tem.
O palmeirense teria de ficar grato a ele.
Com seu currículo poderia estar em qualquer clube do Brasil ou de fora.
Ganhando bem e não se desgastando.
Está sendo muito mais palmeirense do que qualquer torcedor.
Eu o entendo", diz Belluzzo.
Roberto Frizzo já esfrega as mãos e sonha com um funcionário que possa controlar.
Seu homem dos sonhos foi Carpegiani.
Agora é Dorival Júnior, sobrinho de Dudu, de sangue verde.
Quanto a Felipão, seu sonho é trabalhar na Copa de 2014.
Já esteve muito mais próximo da Seleção.
Marco Polo, mentor de Marin e conselheiro vitalício do Palmeiras, não gostou de suas insubordinações.
Acredita que ele desafiou publicamente Tirone e Frizzo.
Tem medo que faça o mesmo com ele e Marin na Seleção.
Defensores de Felipão, como Reinaldo Carneiro Bastos, lembram que ele se comportou bem com Teixeira.
O que importa é que o treinador começou oficialmente a contagem regressiva.
Faltam pouco mais de seis meses para deixar o Palestra Itália.
Mas já está à disposição.
Quem quiser um treinador campeão do Mundo, vice da Eurocopa, bicampeão da Libertadores...
O momento é esse.
Basta acertar tudo com Felipão.
Promessa ele sabe cumprir.
Algo raro no futebol.
Está desde julho de 2010 pagando pelo que falou a Belluzzo e Cipullo.
É melhor nem pensar do que seria do Palmeiras sem ele nestes dois anos de fracasso...