basquete Um tributo à melhor geração do basquete brasileiro. E não estamos falando do ouro do Pan de 87

A seleção brasileira de basquete no Pan de 1963

Depois de um ano, volto à Barra Funda, onde vivi uma das minhas melhores experiências em quase duas décadas de jornalismo esportivo. No ano passado, integrei, com muito orgulho, a equipe que cobriu os Jogos Olímpicos do Rio para a Record News, meu único trabalho em televisão.

Quando deixei, já com saudades, aqueles estúdios situados entre logradouros com nomes bucólicos, a Rua da Várzea e a Rua do Bosque, comecei a alimentar a pretensão de ter um blog no R7: um espaço para falar sobre esportes olímpicos ao longo de todo o quadriênio que antecede sua plataforma de exposição máxima, a Olimpíada. E aqui está ele, caros leitores!

Foram longos meses de paquera, e algumas complicações burocráticas adiaram nossa estreia. Resolvida essa barafunda de trâmites, impõe-se o desafio primordial: escrever. Ao longo desse tempo vinha matutando sobre o tema que inauguraria este espaço. Aqui vamos resgatar memórias olímpicas, além de abordar o atual cenário de competições e tentar iluminar o contexto em que alguns cartolas fazem suas tramoias, o que retarda o avanço do esporte nacional. Fui à exposição no Sesc Consolação que tão bem celebrou os 30 anos de um dos maiores feitos do nosso basquete, a conquista do ouro no Pan de Indianápolis, e fiquei com vontade de escrever a respeito. Mas essa mesma efeméride ficou velha novamente, e a própria exposição terminou no último sábado.

Resolvi então reler um livro que comprei por apenas uma libra em York, na viagem pela Grã-Bretanha que empreendi com o colega Adalberto Leister Filho depois da cobertura dos Jogos Olímpicos de Londres: trata-se de Rome 1960: The Olympics that Changed the World, de David Maraniss, editor do Washington Post que tem um Prêmio Pulitzer na estante. Desde já agradeço ao nobre amigo Adalba, grande pão-duro e o maior talento que já conheci na arte de garimpar sebos em busca de conhecimento por baixo custo.

Como se sabe, Roma foi o belíssimo cenário de uma conquista bem mais relevante do que a do ouro do Pan. Foi lá, no Palazzetto dello Sport, que o basquete masculino brasileiro conquistou um dos três bronzes que possui — os outros foram em Londres-48 e Tóquio-64.

Foram os primeiros Jogos exibidos ao vivo pela TV, além de apresentarem o primeiro caso de morte por doping em Olimpíada desde 1912: o ciclista dinamarquês Knud Enemark Jensen não resistiu à combinação fatal entre o extremo calor do dia da prova e o uso de anfetaminas. A Olimpíada italiana viu ainda o despontar do talento de Cassius Clay, que conquistou o ouro entre os meio-pesados. Curiosamente, um ano antes, aquele que viria a ser conhecido como Mohammed Ali não havia conseguido passar pela seletiva para os Jogos Pan-Americanos de Chicago. Na ocasião, sofreu uma rara derrota em sua carreira amadora para o fuzileiro naval Amos Johnson. Segundo Nikos Spanakos, colega de equipe americana, Clay havia devorado seis pratos de espaghetti no jantar da véspera.

Maraniss relata que apenas dez jornalistas de língua portuguesa batucavam as teclas das Olivetti do centro de imprensa, sem especificar quantos seriam lusitanos, quantos brasileiros. O grande Amaury Pasos, num dos encontros que a Confederação Brasileira de Basquete organizou para rememorar as conquistas do passado, me disse que lembrava com saudades daquela edição. "Muito se fala sobre a beleza que foram os Jogos de Barcelona-92. Mas e o que dizer de Roma-60? Imagine a beleza do lugar, a pujança da Itália no pós-guerra, tudo o que víamos nos filmes do cinema italiano, o Foro Itálico, o Palazzetto dello Sport".

Na opinião do dono do Pullitzer de 93, Roma apresentou o primeiro Dream Team da história do basquete americano. Três dos integrantes daquela equipe integram a lista dos 50 melhores da história da NBA: Jerry Lucas, Jerry West e Oscar Robertson. Cabe lembrar ainda que apenas duas seleções fazem parte do Hall da Fama do basquete: os times olímpicos americanos de 60 e 92.

O Brasil vinha da conquista do Mundial de 59, no Chile, mas ela não espelhava a relação de forças da época. As obras de construção do ginásio que recebeu as fases finais daquele Mundial, em Santiago, arrastaram-se, o que adiou a competição em vários meses. Quando o evento enfim foi realizado, os jogadores convocados pelos EUA cumpriam outros compromissos, e à capital chilena foi enviada uma seleção de jogadores da Aeronáutica.

Com poderio integral em Roma, a equipe norte-americana simplesmente demoliu qualquer pretensão da União Soviética, que sonhava com uma vitória no basquete capaz de oferecer ampla repercussão propagandística no contexto da Guerra Fria: 81 a 57. O Brasil também não foi páreo, mesmo com Amaury, Wlamir Marques, Edson Bispo, Sucar e cia: 90 a 63.

Contra os soviéticos dava jogo, e como: vitória brasileira na fase inicial, por 58 a 54, e derrota na fase final (64 a 62), mas Wlamir contesta o resultado até hoje. "Foi roubado".

Amaury já pediu a reconstituição da memória do basquete. Desde que um incêndio na década de 60 queimou boa parte do arquivo da TV Record, os registros das glórias brasileiras, que incluem o bi mundial no Rio, em 63, tornaram-se escassos. "Dizem que eu jogava bem, mas nunca me vi jogando", brinca o antigo craque, que integrou o quinteto ideal, a seleção dos Jogos de 60, em enquete feita por jornalistas, ao lado de quatro americanos. A projeção lhe valeu uma proposta para jogar no Los Angeles Jets, que fazia parte da American Basketball League e planejava entrar na NBA. Por motivos pessoais e para poder continuar a atuar pelo Brasil, declinou.

Ficam ao menos aqui, neste espaço, nossas homenagens à melhor geração que o basquete brasileiro já teve, indiscutivelmente.