16 08 17 rosemar coelho atleta olimpica 159502 1024x682 Rosemar dá continuidade ao legado de Adhemar

Convivi pouco com Adhemar Ferreira da Silva, infelizmente. Comecei a trabalhar no jornalismo em 97. Já em 2001 ele faleceu. Eu o via às vezes, quando ia cobrir o Troféu Brasil de Atletismo. Era o tipo de personagem que me inibia um pouco. Era ainda um principiante e tinha receio de lhe perguntar alguma bobagem, algo que focas sempre fazem. Depois que ele morreu, me arrependi de nunca ter feito uma matéria com ele, sobre qualquer assunto que fosse.

Esta semana, no último dia 29, Adhemar teria completado 90 anos. Felizmente, consegui ao menos conversar com Rosemar Coelho, que é casada com o neto dele e, de certa forma, deu continuidade às conquistas da família ao herdar a medalha de bronze do 4x100m livre dos Jogos de Pequim, por conta de um doping.

Nascida em Juquiá, perto de Miracatu, na região do Vale do Ribeira, Rosemar foi revelada na escola, durante as aulas de Educação Física, pelo professor Paulo Itioka. "Eu tinha doze anos. Corria, já naquela idade, provas de 100m e 200m, não fazia as de 65m, como recomendado hoje. Mas o Paulo Itioka nos passava a essência do miniatletismo. Vivenciei todas as provas".

Rosemar, hoje com 40 anos, recebeu, oito anos depois, a medalha de bronze dos Jogos de Pequim. Ela integrou, ao lado de Lucimar Aparecida de Moura, Thaissa Presti e Rosângela Santos, o quarteto que cruzou a linha de chegada na quarta colocação no Estádio Ninho do Pássaro, 0s1 atrás da Nigéria. Com a desclassificação da Rússia, devido ao envolvimento de uma atleta com doping, a Bélgica herdou o ouro, e a equipe africana ficou com as medalhas prateadas. O Brasil, então, tornou-se medalhista também no revezamento, resultado que faz companhia à medalha de ouro de Maurren Maggi no salto em distância, único pódio que o país havia obtido em Pequim no atletismo, até então.

A história cheia de reviravoltas de Rosemar no atletismo começou logo na primeira competição dela, os Jogos Escolares, na região do Vale do Ribeira. O evento foi meio desorganizado, e a corredora não foi chamada para disputar a prova de 100m feminina. A forma de reparar o erro e contemplar a participação dela foi incluí-la na bateria masculina. E ela venceu. "Se bem me recordo, meu tempo foi 13s36, e o menino mais rápido chegou com uns 13s56".

Casada com Diego Menasse, neto do bicampeão olímpico do salto triplo Adhemar, Rosemar participa do Instituto Salto Para a Vida Adhemar Ferreira da Silva, presidido pela filha do triplista, a cantora Adyel Ferreira da Silva.

Desde 2014, o Instituto mostra o miniatletismo em escolas. Naquele ano, o esporte foi apresentado em um CEU (Centro Educacional Unificado), da Prefeitura Municipal de São Paulo. Esse número saltou para seis CEUs no ano seguinte. No ano passado, o projeto foi apresentado em 15 escolas públicas do Vale do Ribeira, região que inclui a Juquiá, terra natal de Rosemar, e Miracatu, onde ela foi apresentada ao atletismo, por obra de Paulo Itioka. No Vale do Ribeira, região com o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Estado de São Paulo, o Instituto capacitou 60 professores a ministrar o conteúdo do miniatletismo, por meio do professor cubano Lázaro Velázquez.

"Minha maior luta é fazer as escolas aprenderem esse método. A maior parte dos atletas brasileiros é mesmo revelada nas escolas. No interior, não há clubes. A iniciação esportiva se dá mesmo nas escolas. Quando conversamos com os educadores, muitos nos dizem que não têm condições de dar atletismo. Olha, se há uma quadra, é possível dar atletismo. Percebo sempre essa dificuldade. Acham que é necessária uma pista. As próprias crianças acham que o universo do atletismo está longe delas. Nosso trabalho é esclarecer que não. Dá para fazer. A gente improvisa materiais com garrafas pet, pelotas, fazemos dardos com bambus. Foi através de um professor que conheci o atletismo, e quero fazer o mesmo pelas crianças", diz Rosemar, formada em Educação Física pela Unisantana, em 2007.

A medalha olímpica, conquistada anos depois da disputa daquela final do 4x100m, reforça a projeção e torna o apelo de Rosemar ainda mais forte. "A minha luta é fazer as escolas entenderem que é possível fazermos mais nas aulas de Educação Física. O Brasil pode se tornar uma potência olímpica, porque é um país muito rico em material humano".