36984236565 3b3314db88 z3 Nunca fomos tão fortes entre os pesados no judô

Ninguém ficou mais pimpão do que Osvaldo Hatiro Ogawa com os belos resultados do Brasil na categoria pesado masculina do Mundial de judô de Budapeste. Hatiro, neto de Ryuzo Ogawa, um dos introdutores do judô no Brasil, foi treinador tanto de David Moura, prata na Hungria, como também de Rafael Silva, o Baby, que ficou com uma das medalhas de bronze.

Poucos conhecem tantos detalhes da trajetória dos pesados que salvaram a participação do judô masculino brasileiro na Hungria - nenhuma outra categoria "medalhou" lá.

Moura, após ver frustrado o intento de obter vaga nos Jogos do Rio, treinou com intensidade e alcançou a liderança do ranking da Federação Internacional de Judô. O mato-grossense lançou mão de um macete já empregado por Baby - treinar com luvas para melhorar a pegada, dificultando a missão do fortíssimo Teddy Riner, a grande fera do judô internacional. "Com a luva, a sensibilidade da mão fica menor. O judogui (quimono) tem pontos de costura na borda da manga e por baixo dela - onde tem a costura é mais grosso. O uso da luva vai contribuir para melhorar a pegada. O judoca pega com a luva na costura, que é mais volumosa, e melhora a aderência", diz o velho mestre.

Obcecado por uma medalha olímpica, Moura tem um amplo repertório de qualidades, a começar pelos genes. Ele é filho de Fenelon Oscar Muller, bronze no Pan da Cidade do México de 1975, e sobrinho, por parte de mãe, de Luiz Virgílio Moura, que competiu entre os meio-pesados em Moscou-80 e foi um dos principais nomes do judô brasileiro na era pré-Aurélio Miguel.

Fenelon e Hatiro foram contemporâneos na categoria pesado, e são amigos de longa data. Fenelon convidou o antigo adversário para coordenar a área esportiva de sua escola em Cuiabá, o Colégio Ibero-Americano, que funciona em horário integral e capricha na oferta de esportes em sua grade curricular. Além de encabeçar os trabalhos na área de Educação Física da escola, Hatiro foi treinador de David durante boa parte da infância e adolescência do pesado mato-grossense.

"O David era um garoto que fez tudo quanto é tipo de modalidade esportiva. Montava a cavalo no pelo, na fazenda, jogava basquete, futebol e vôlei, lutou boxe e nadou muito bem. Bateu alguns recordes mato-grossenses no nado livre. Por esse motivo, tem uma qualidade técnica e uma coordenação maravilhosas", elogia Hatiro.

David é praticamente ambidestro no que tange ao judô - executa goles pela esquerda e pela direita. Para encarar as exigências físicas impostas por um adversário como Riner, faz exercícios com cordas, pneus de caminhão e levantamento de peso olímpico. Fez parceria com Flávio Canto, um dos maiores especialistas em luta de solo que o Brasil já teve, e se aprofundou nessas técnicas. Os resultados de todo esse esforço são visíveis: conseguiu levar a luta com Riner para o golden score, o tempo extra do judô. Contudo, sucumbiu por ippon.

Quando tinha 15 anos de idade, Moura se cansou do judô e se afastou. Nesse período, priorizou a natação e o boxe. Apenas aos 18 anos é que retomou a atividade nos tatames, colocando para si então a meta de obter uma medalha olímpica. Nessa época, Baby foi convidado para treinar por oito dias em Cuiabá com o garoto.

"Não havia adversários para o David no Mato Grosso, e o Baby foi chamado para uns treinos. Nessa época, o David apanhava muito do Baby, e isso foi bom para ele perceber que tinha que correr atrás", lembra Hatiro, que foi treinador de Rafael no Projeto Futuro a partir dos 15 anos de idade do pesado paranaense, que se mudou para São Paulo depois de se destacar nos Jogos Escolares.

Nessa época, David se afastou do confinamento em Cuiabá para travar contato com a nata nacional de sua categoria. Representou Piracicaba nos Jogos Regionais e Abertos por dois anos seguidos e também fazia viagens a São Paulo e ao Rio, para treinos no Pinheiros, no Flamengo e com Canto, no Instituto Reação, pelo qual é federado e que representa em competições nacionais.

"O fato de termos dois pesados com tão bom nível é excelente para nós. Um eleva o nível do outro, e o Brasil fica muito bem representado", aponta Hatiro.

A frustração fica por conta de um obstáculo hoje intransponível, Teddy Riner, que tem oito medalhas de ouro na categoria acima de 100 quilos em Mundiais e é bicampeão olímpico.

"Hoje há uma verdadeira obsessão por derrotar o Riner. Acho que, se o Baby ou o David ganharem do Riner na segunda rodada de um Mundial, mas forem eliminados na fase segunte por um judoca mediano, ainda assim ficarão muito satisfeitos", diz Hatiro.

Essa obsessão, é claro, se estende ao Japão, que cobiça como nunca o ouro da categoria pesado dos Jogos de Tóquio 2020. "O Japão já está preparando uma geração nova, com judocas mais novos e altos, para ver se consegue encarar o Riner. Um dos japoneses da categoria pesado no Mundial da Hungria tem 1,85m", diz Hatiro.

Entre outros, está sendo preparado Yusei Ogawa, filho do quatro vezes campeão mundial Naoya Ogawa, que foi também prata em Barcelona-92. Yusei tem 1,92m e 21 anos. Já tem no currículo o bronze do Mundial Júnior de Abu Dhabi. A ênfase na altura é uma tentativa de reduzir a defasagem em relação a Riner, que impera na categoria diante de seus 2,04m.