1505920709 935454 1505932222 noticia normal recorte14 1024x575 Minhas homenagens a Jake LaMotta, o Touro Indomável

Interrompo a sequência de posts sobre esportes olímpicos para render minhas homenagens a Jake LaMotta, o Touro do Bronx, que acabou ficando conhecido como "Touro Indomável", título do magistral filme de Martin Scorsese. A morte do campeão mundial dos médios, na última terça-feira, por pneumonia, mexeu comigo. Mr. LaMotta me proporcionou uma das grandes alegrias da minha carreira, ao me conceder uma entrevista por telefone, em 2004, nos tempos em que eu trabalhava para o Diário de S. Paulo.

A entrevista foi proporcionada por aquilo que chamamos, na imprensa, de "Operação Portugal". É a forma como nos referimos, nas redações, às pautas que nascem de pedidos de chefes, que não são pedidos, obviamente, mas ordens. O diretor de redação passou, via editor de esportes, a pauta: entrevistar um médico, dono de um laboratório de análises clínicas na Avenida Rebouças. Esse médico, Mário Ferman, tinha, naquele prédio, uma bem  cuidada coleção de itens de memorabília do boxe, como luvas assinadas, pôsteres, fotos, de grandes campeões. A quantidade de itens me impressionou.

O maior ídolo do doutor Ferman era LaMotta. O médico acompanhava pelo rádio, desde a década de 50, em sua cidade natal, o Recife, o noticiário que dava conta das façanhas do Touro do Bronx. Grande amigo de Eder Jofre, Ferman conheceu LaMotta na festa de 75 anos da revista Ring, a Bíblia do boxe, em Atlantic City. O brasileiro abordou a lenda do boxe, dizendo que era um grande fã. Desconfiado, LaMotta fez duas perguntas difíceis para testar o conhecimento de Ferman sobre sua carreira: indagou-lhe em qual round havia derrotado Marcel Cerdan, quando arrebatou o título mundial. E depois quis saber qual era a data de sua vitória sobre Sugar Ray Robinson, considerado o atleta mais técnico da história do boxe. Respostas: décimo round, 5 de fevereiro de 1943. As respostas corretas renderam a Ferman uma amizade com seu ídolo.

"Nós realmente somos bons amigos. Sempre que ele vem a Nova York não deixa de me visitar, o que me faz muito feliz. Conversamos bastante sobre muitos assuntos. Nós não nos vemos com a frequência que gostaríamos, mas considero-o como um filho, gosto muito dele", disse-me LaMotta.

Na entrevista, LaMotta falou até mesmo sobre a luta que entregou para Billy Fox, a pedido da Máfia. Esse arranjo lhe propiciou uma oportunidade de lutar pelo título mundial. "Nunca contrariei a Máfia. Não poderia afrontá-la, recusando-me a atendê-la. É claro que foi difícil para mim ser obrigado a perder uma luta, mas a vida é assim".

Pois, é, caro senhor LaMotta. A vida é assim mesmo.